quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Merleau-Ponty o corpo como carne do mundo

A porosidade das fronteiras entre o corpo e a alma, e mais notadamente entre o corpo objeto e corpo sujeito, entre o corpo individual e o corpo coletivo acentuou-se no século XX.
Há uma agenda de pesquisa sobre o corpo bastante intensa.
O corpo circula entre proibições, permissões, regras, controle, modos de existir se organizam em torno da visibilidade do corpo, de seus gestos, de sua linguagem.

Jean-Jacques Courtine vai dizer, na apresentação do terceiro volume da história do corpo (editora vozes, 2006), que o século XX inventou teoricamente o corpo, sobretudo com Freud e com a fenomenologia de Husserl e de Merleau-Ponty, com o corpo no mundo e vai dizer que a história do corpo no campo das ciências humanas e sociais e no campo da vida está só começando.

Nesse campo, as teses de Merleau-Ponty são significativas. Ao tratar de uma metafísica da carne, que nada tem a ver com essencialismos, solipsimos, determinismos de nenhuma ordem, Merleau-Ponty irá meditar sobre a imbricação do corpo no mundo, o corpo como sensível exemplar e sobretudo sobre a corporeidade como condição do ser selvagem.

Em o Visível e o invisível dirá: Não vejo os meus olhos, nem tampouco o meu dorso. Essa carência, essa lacuna é preenchida por um visível do qual não somos titulares. Assim busco acoplamentos, conexões com a carne do mundo.

O corpo cria movimentos e ao mover-se cria sentidos, desequilibra, inverte. Sobre o quiasma corpo e mundo, Merleau-Ponty afirma: “movimento, tato, visão, aplicam-se ao outro e a eles próprios. No trabalho paciente e silencioso do desejo, começa o paradoxo da expressão” (O Visível e o invisível).

Na mesma obra, afirma: “Qualquer que seja o modo pela qual a compreendamos (a idealidade cultural), ela já brota e se espalha nas articulações do corpo estesiológico”. Prolongamentos do corpo, dobras do corpo no mundo, uma percepção selvagem (indeterminada). Ontologia do ser selvagem, ser da criação. As determinações atravessam o corpo, mas o corpo se dobra, desdobra, dança, cria novos arranjos, performances, sentidos...

A noção do corpo como carne evidencia o desapego de Merleau-Ponty à filosofia da consciência e o deslocamento epistemológico em sua fenomenologia para além dos caminhos da percepção, cuja tarefa assume o lugar de uma meditação inacabada sobre o corpo. A noção de corpo como carne abriu espaço para a noção de corpo-sem-órgãos proposta por Deleuze e Guattari, em sua relação às intensidades corporais, às experimentações do corpo e produções de subjetividades.

Nas dobras do corpo, carne no mundo, a moralidade ou os determinismos de qualquer natureza não tem mais espaço para o pensamento e para a existência. Não se trata mais de uma metafísica essencial, idealista; mas uma metafísica da carne, nervura do visível e do invisível, ontologia do ser bruto, experiência de ser no mundo.


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A DUVIDA DE CEZANNE

Comentário sobre A dúvida de Cézanne – Ensaio estético de Merleau-Ponty
por Petrucia Nóbrega

O ensaio inaugura, confirma e amplifica o pensamento estético de Merleau-Ponty, com ênfase em uma reflexão inacabada, pois o pensamento, a verdade, a obra, a vida são também inacabadas. Pode a obra corresponder, retratar, dizer a vida? A angústia de Cézanne e o motor do ensaio escrito por Merleau-Ponty.

A dúvida de Cézanne busca e apresenta vias de comunicação entre a vida e a obra, fazendo vibrá-las, buscando novas formas de expressão, comunicação, registro e escritura.
Cézanne irá buscar nas cores, na embriaguez das sensações, no mergulho na natureza, nas deformações da visão humana, em sua contingência corpórea, esquizóide, o motivo para sua arte, para seus quadros, para sua vida. “para um pintor como esse, afirma Merleau-Ponty (p.133), uma única emoção era possível: o sentimento de estranheza, e, um único lirismo: o da existência sempre recomeçada”. Creio que podemos estender esse mesmo pensamento ao filósofo Merleau-Ponty, sua meditação sobre o corpo, sua interrogação sobre a filosofia e a ontologia do ser sensível, bruto ou selvagem.

Para fazer vibrar a arte e a vida Cézanne recusa a perspectiva geométrica, não quer uma pintura inteiramente organizada, sem deformações. Estas correspondem ao paradoxo do mundo e da nossa visão sobre as coisas e sobre a própria existência.

A composição da palheta de Cézanne já mostrava a corpo como experiência, como imbricação corpo e mundo, contemporaneamente estudada pelas ciências cognitivas, para além da fisiologia da visão, das impressões luminosas e da cor como atributo da luz[1].

Émile Bernard diz que Cézanne teria mergulhado a pintura na ignorância e seu espírito nas trevas (p.127). Mas, “só pode julgar assim sua pintura quem não prestou atenção à metade do que ele disse e fechar os olhos ao que ele pintou” (p. 128). Para compreender Cézanne é preciso ver Cézanne – só se vê o que se olha (OE). É a experiência sensível que nos ensina a enxergar. É o movimento do olhar que amplifica o nosso conhecimento.

Em seu mergulho na natureza, Cézanne recusa as dicotomias. Diz Merleau-Ponty, cujo resumo encontra-se em uma das citações mais recorrentes de seu pensamento estético, segundo Merleau-Ponty (p.128):

“Cézanne não acreditou ter que escolher entre a sensação e o pensamento, como entre o caos e a ordem. Ele não quer separar as coisas fixas que aparecem ao nosso olhar e sua maneira fugaz de aparecer, quer pintar a matéria em via de se formar, a ordem nascendo por uma organização espontânea”.

Ao pintar, ao transformar a paisagem, o objeto, as figuras humanas em quadro, Cézanne imobiliza as sensações, detém-lhes o movimento. Porém, esse movimento é retomado pelo seu próprio olhar, dirigido inúmeras vezes ao Monte Santa Vitória, aos banhistas, às naturezas-morta. O movimento também é retomado pelo olhar do outro (p.135, 136).

O pintor, o artista, o filósofo, o professor, através de sua obra deve não apenas criar ou exprimir uma idéia, mas despertar as experiências que a enraizarão em outros corpos. Vivemos em meio a objetos construídos pelos homens, em casas, ruas, cidades. Na maior parte do tempo não vemos senão a partir do nosso ponto de vista humano. A pintura de Cézanne rompe com essa familiaridade.

No ensaio, a arte não é compreendida como imitação, nem como fabricação segundo os desejos ou o bom gosto, nem como recreação, divertimento. O pintor assume a cultura, mas a concepção não precede a execução da obra. “Antes da expressão não há senão uma febre vaga e somente a obra feita e compreendida provará que se devia encontrar ali alguma coisa em vez de nada” (p.134).

Os gestos do pintor transformam-se em pintura. A técnica não é um fim em si mesma, precisa considerar a paisagem. “A anatomia, os desenhos estão presentes como as regras do jogo numa partida de tênis. O que motiva um gesto do pintor nunca pode ser apenas a perspectiva ou apenas a geometria, as leis da decomposição das cores ou um outro conhecimento qualquer (p.132). “Ele germinava na paisagem”, diz Hortense sobre Cézanne.

O tema da contingência do corpo, da vida, dos vínculos afetivos com a infância, com a mãe, com o pai, os amigos estarão presentes na obra, sem determiná-la, mas “a verdade é que essa obra por fazer exigia essa vida” (p. 136).
A liberdade só pode ser encontrada no curso da vida. A interpretação de Freud sobre Da Vinci, em especial sobre a figura do abutre em A Virgem com o menino e Sant’ Anna, é arbitrária. Merleau-Ponty tece algumas críticas a teoria da sexualidade de Freud, o que não inviabiliza a intuição psicanalítica. “ A liberdade é sempre uma retomada criadora de nós mesmos” (p. 142).


[1] ESTUDO DAS CORES NAS CIÊNCIAS COGNITIVAS (Varela e colaboradores).

domingo, 31 de agosto de 2008

O pensamento estético de Merleau-Ponty



Com esse título pretende-se abordar a filosofia de Merleau-Ponty como um pensamento estético, com destaque para o corpo como sensível exemplar, a metafísica da carne, a estesia, o logos estético.

A meditação sobre a arte, em especial a pintura irá provocar deslocamentos no pensamento do filósofo, um acerto de contas com a própria fenomenologia. A arte redimensiona a filosofia, oferece-lhe novos meios para pensar. Merleau-Ponty não faz uma teoria crítica ou uma história da arte. A arte é uma celebração do corpo, estesia, ciência emblemática dos sentidos. O filósofo também não escreve uma estética filosófica, busca o logos estético como possibilidade de enxergar a vida filosófica como uma criação, uma invenção poética do conhecimento e da vida.

No inventário do visível que a pintura moderna produz, Merleau-Ponty busca a força do espanto para criticar a ciência moderna e o pensamento reflexivo e o privilégio da consciência e do racionalismo.

O encontro com a arte, o romance, o cinema, a pintura, a literatura dá a Merleau-Ponty uma via filosófica inteiramente nova, não mais os caminhos da percepção, mas de um pensamento corpóreo, expressivo, linguagem muda, posto que as significações também são de outra ordem, não mais a ordem do cogito ou de uma consciência ordenadora, mas desdobradas da carne.

Significações que sangram diante de nós e para as quais a moralidade ou os determinismos de qualquer natureza não tem mais espaço para o pensamento e para a existência. Não se trata mais de uma metafísica essencial, idealista; mas uma metafísica da carne, nervura do visível e do invisível, ontologia do ser bruto, experiência do mundo.


Segundo Merleau-Ponty, em o romance e a metafísica, a expressão filosófica assume as mesmas ambigüidades que a expressão literária, pois o mundo não pode se expressar além de “histórias”. Uma velha jaqueta sobre o assento não se comporta em absoluto como uma consciência, as coisas necessitam do meu olhar para existir, necessitam portanto de um movimento do corpo, o olhar, para produzir a visão e a existência; assim nos salvamos da transcendência.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

MOVIMENTOS DO CORPO E DO PENSAMENTO


No Pósfácio de O Visível e o Invisível, Claude Lefort diz que a morte de um amigo nos põe à beira de um abismo. Tanto mais que nada a fazia supor, o que ocorreu não se pode imputar à doença, à velhice. Ainda mais quando aquele que morre está vivo a ponto de ligar nossos pensamentos aos seus, de nele procurarmos as forças que carecemos. Tal foi a repentina morte de Maurice Merleau-Ponty. A obra está a termo e o termo veio depressa demais, mas esse lamento nada pode contra a evidência de que a obra nasce no momento em que se encerra.

Com a obra a termo, cabe-nos a tarefa de buscar o movimento das idéias e da própria reflexão. Nas primeiras obras Merleau-Ponty se manteve no campo da filosofia da consciência (consciência perceptiva, o que já representava uma ruptura com a tradição filosófica), mas ele mesmo não deixou de apontar as dificuldades para mover-se no interior desses parâmetros que era objeto de sua crítica (o cogito, a consciência, a racionalidade, a percepção, a linguagem).

O diálogo com a literatura, o cinema, a pintura provocou deslocamentos em sua fenomenologia. A exploração da pintura, da poesia, das imagens do cinema nos dá uma nova visão do tempo e do homem, bem como outras maneiras de perceber a ciência e a filosofia.

Em obras como Sinais (Signos) e em o Visível e o Invisível encontramos um acerto de contas com a fenomenologia de Husserl e o deslocamento de uma filosofia da consciência para uma profunda meditação sobre o corpo e sua experiência cinestésica, cuja estesia será expressiva de uma nova filosofia ou de uma nova maneira de fazer filosofia.

Da relação Corpo e consciência para a experimentação do corpo no mundo

Nesse movimento, destaca-se inicialmente, o diálogo com as ciências, em especial com a fisiologia e com a psicologia. Por meio da revisão dos conceitos científicos de corpo, motricidade, sensação e percepção, Merleau-ponty questiona a profunda cisão entre o corpóreo – tomado como pura exterioridade, o corpo como um mosaico de partes isoladas, que funcionam segundo relações de causalidade linear – E/R - e o pensamento reflexivo – tomado como pura interioridade, como posse intelectual do mundo. Fará esse questionamento por meio da percepção, compreendida como cinestésica, ligada ao corpo e sua capacidade de criar movimentos.

O enigma do corpo e do mundo, do pensamento e da ação produz novas significações, novas interrogações, novas informações, novas excitações, novas situações que continuam a se produzir cada vez que olhamos o quadro e somos afetados por ele. Nesse movimento, o paradoxo do corpo não cessará de produzir outro, o do mundo; uma vez que o mundo é feito do mesmo estofo do corpo.

Essa percepção não é uma tomada de “consciência“ de um sujeito que constitui o mundo por representação, um sujeito espiritual (ser puro), mas é experimentação de um sujeito encarnado, sujeito que é corpo, visível e invisível para si próprio (presença e ausência de si), um corpo imbricado no mundo, um corpo que se move.

Esse movimento corpo, consciência, corpo e mundo, a propósito do tempo, do espaço, do movimento, do outro, têm impulsionado novas práticas na educação física, novas maneiras de se movimentar para além do deslocamento mecânico das partes do corpo no espaço, dos conteúdos e métodos de ensino tradicional, dos preconceitos em relação à aptidão física, padrões corporais, relações de gênero, entre outros aspectos da cultura de movimento e de sua apropriação em diferentes áreas de conhecimento.
Petrucia Nóbrega
Trecho da comunicação apresentada no Café Filosófico´Projeto de extensão do
Grupo de pesquisa metafísica e Tradição e TV Universitária/UFRN

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A EDUCAÇÃO COMO PROSA DO MUNDO

Há muitos escritos sobre o corpo e educação, haveria ainda algo a ser dito? Talvez não, mas a impressão é de que falta muito a ser realizado quando se trata de considerar o corpo nas práticas educativas para além de sua instrumentalização em processos de aprendizagem. Talvez essa reflexão possa conduzir ao espanto como condição de reaprende a ver o mundo, reconvocar por inteiro nossa sensibilidade, nosso poder de agir e de criar horizontes.

Sendo o corpo condição existencial, afetiva, histórica, epistemológica como compreendemos na fenomenologia de Merleau-Ponty, precisamos admitir que o corpo já está presente na educação. O desafio é superar as práticas disciplinares que o atravessam e reencontrar outras linhas de força. Desse modo, as aventuras pessoais, os acontecimentos banais ou históricos, a linguagem do corpo precisa ser considerada no ato de ensinar.
Em A prosa do mundo, o filósofo afirma: “Todo o meu aparelho corporal se reúne para alcançar e dizer a palavra, assim como minha mão se mobiliza espontaneamente para pegar o que me estendem (...). O “eu” que fala está instalado em seu corpo e em sua linguagem não como numa prisão, mas, ao contrário, como um aparelho que o transporta magicamente à perspectiva do outro” (MERLEAU-PONTY, 1969/2002, p.41).

Nessa nota sobre educação, as experiências com a formação de professores de Arte e de educação Física mostram possibilidades de convivência com o corpo que se inspiram nas teses fenomenológicas. Nestas, a experimentação das técnicas corporais procura aprofundar a relação do ser-no-mundo, compreender a espacialidade do corpo, a tonicidade, a linguagem do gesto, do silêncio e da voz. As experiências do contato humano, dos gestos construídos em diferentes culturas amplificam o olhar como campo da experiência sensível e da imputação de sentidos.
No entanto, essa filosofia do corpo não se restringe a Educação Física ou a Arte. Trata-se de uma reflexão mais ampla sobre a educação, em particular aquela que ocorre em instituições como as universidades e as escolas. A idéia de esboço, de inacabamento da obra de arte é figurativa de uma idéia de educação em que os processos de conhecimento não se reduzem as etapas pré-estabelecidas ou a categorias abstratas. Assim como na obra de arte, os olhares que se cruzam diante dos conceitos, das noções, das estratégias são permeados de sensibilidade e provocam sentidos múltiplos. Como conseqüência não há somente uma forma de aprender ou mesmo uma coisa ou um conjunto definido de coisas a serem aprendidas. Podemos aprender diferentes coisas em uma mesma situação educativa.

Uma filosofia figurada do corpo, como se pode ver nos cinco corpos vermelhos pintados por Matisse em La Danse, poderá contaminar uma compreensão de educação cujos limites, contornos, posições no espaço não sejam unificadas ou unificadoras, mas permitam diferentes aproximações, pontos de vista, trajetórias, linhas de força. Talvez essa filosofia do corpo possa animar, movimentar as nossas estruturas corporais e espirituais, bem como as estruturas dos espaços educativos, dos currículos, dos horários, dos exames. Confundir as nossas categorias lógicas, como Matisse confunde as cores, os contornos, as texturas, é uma forma de exercício e quem sabe uma possibilidade de imputar novos sentidos ou de retomar sentidos deixados para trás.

Que educação seria essa? Uma educação sensível? Uma educação estética? Uma educação como aprendizagem da cultura? Uma educação para a liberdade ou para a emancipação, para a transgressão, para a resistência? Todas essas e talvez outras que possamos inventar ou que já foram inventadas alhures. Essas expressões, algumas delas recorrentes em importantes teorias educacionais, apresentam uma compreensão do corpo, sendo mais ou menos explícita em algumas escolas de pensamento que em outras. Esse movimento em torno do corpo tem gerado questionamentos, polêmicas, incômodos. Toda educação seria uma educação física ou mesmo uma educação do corpo? Sim e não. Sim se pensarmos do ponto de vista ontológico e não se pensarmos com uma razão didática.

No primeiro sentido corremos o risco da hipostasia e no segundo da instrumentalização do corpo. Talvez o mais indicado seja nos situarmos na dobra, no enigma. A originalidade desse pensamento não está na antinomia, mas no cruzamento, no quiasma, nas dobras que envolvem o acontecimento. A animação do corpo não está no inventário das partes ou na encarnação de um espírito como pólos opostos, encontra-se na experiência do corpo, em sua reflexividade capaz de colocar o sujeito em relação com o mundo e assim inaugurar atos de conhecimento.
Petrucia Nóbrega

Referências
MATISSE, Henri. Escritos e reflexões sobre arte. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 1972/2007.
MERLEAU-PONTY, Maurice. A prosa do mundo. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, 1969/2002.

sábado, 31 de maio de 2008

PERCEPÇÕES DO CORPO NA CIDADE DE NATAL


Compreende-se que a experiência perceptiva é uma experiência corporal na qual reencontramos ou religamos a unidade do sujeito e do mundo, bem como do próprio ato perceptivo. Merleau-Ponty faz a crítica ao pensamento objetivo, pois não há distinção entre o sujeito, o objeto e o ato de ligação, destacando o movimento e o sentir como elementos da percepção.

“A percepção sinestésica é a regra, e, se não percebemos isso, é porque o saber científico desloca a experiência e porque desaprendemos a ver, a ouvir e, em geral, a sentir, para deduzir de nossa organização corporal e do mundo tal como concebe o físico aquilo que devemos ver, ouvir e sentir” (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 308). Desaprendemos a conviver com a realidade corpórea e a aprender a partir da reversibilidade dos sentidos, privilegiamos uma razão sem corpo. No entanto, a percepção, compreendida como um acontecimento da existência, pode resgatar este saber.

A teoria da percepção em Merleau-Ponty também se refere ao campo da subjetividade e da historicidade, ao mundo dos objetos culturais, das relações sociais, do diálogo, dos afetos, das tensões, das contradições. “O mundo percebido não é apenas o meu mundo, é nele que vejo desenhar-se as condutas de outrem” (IDEM, p. 453). Sob o sujeito encarnado, correlacionamos o corpo, o tempo, o outro, o mundo da cultura e das relações sociais.
Na pesquisa de campo, realizada entre os anos de 2006 e 2007, entrevistamos, com a colaboração de Thompson Pereira da Costa e Moaldecir Freire, bolsistas de Iniciação Científica, pessoas que participam de práticas corporais na cidade de Natal/RN, a maioria em espaços públicos da cidade (parques, praias, praças, áreas de lazer). Indagados sobre qual a motivação para realizar as práticas os sujeitos, homens e mulheres, jovens e adultos apontam para questões como manter uma vida saudável, finalidades estéticas e lazeres.

Destaca-se a relação entre a percepção do espaço e da própria cidade por meio das experiências corporais. Em cada uma das práticas observadas – tai chi chuan, yoga, caminhadas, surf, futebol, dança de salão, entre outras se constrói uma percepção específica do corpo e da cidade. As percepções apresentadas pelos sujeitos estão situadas em práticas de si históricas e socialmente localizáveis. Cada uma dessas práticas possui um programa que atende a tecnologia disciplinar, com indicações sobre os usos do corpo, do espaço, o controle do tempo, das emoções que vêm se configurando ao longo dos processos sócio-históricos, sendo investidas por determinações sociais, culturais, científicas, políticas.

A percepção só é possível por meio dos vínculos corporais. As práticas corporais vividas pelos sujeitos revelam e escondem o que a cidade exclui. Essa percepção é intensificada com a afirmação dos sujeitos a respeito das diferenças entre as zonas administrativas da cidade e seus espaços para o lazer, a cultura, para o cultivo do corpo. A cidade tem correspondido a essas expectativas? Como essas diferenças são construídas e como afetam a percepção dos sujeitos? O processo de modernização da cidade de Natal, associado à requalificação espacial, foi introduzido e se intensifica, impondo-se uma paisagem urbana em que cada vez menos os espaços públicos como praças, parques e mesmo as praias são acessíveis (FERREIRA e MARQUES, 2000).

Esse corpo capaz de sensação é também um corpo expressivo, no sentido cinestésico e político. As práticas corporais e as percepções dos sujeitos sobre as experiências corporais apontam para uma percepção da cidade cada vez mais condicionada por expectativas de saúde, boa forma e lazer.
As expectativas dos sujeitos em relação ao corpo, à saúde e ao lazer são condicionadas por um modo de vida urbano marcado pela segregação sócio-econômica e espacial encontradas na cidade, exploradas pela mídia, pela publicidade, cujas sutilezas são amparadas pelo domínio da tecnociência e do mercado, como bem demonstra os estudos de Silva (2001).

Os shopping centers, as academias de ginasta com suas paredes de vidro são grandes vitrines do culto ao corpo contemporâneo. A vida ao ar livre parece cada vez mais distante das experiências corporais e da cidade. Para caminhar na praia, precisamos de uma série de equipamentos, cosméticos, orientações de um profissional especializado que nos afastam de nós mesmos e da própria cidade.

Os espaços da cidade como lugares de encontro, convivência, culto ao corpo configuram as percepções, bem como as experiências corporais alteram a percepção dos espaços na cidade. As percepções dos sujeitos sobre suas práticas corporais, os cuidados com a saúde, as preocupações estéticas, os lazeres pautam-se por uma expectativa do corpo que segue, regra geral, uma ideologia do ser saudável e da cultura do bem-estar. Essas percepções poderiam ser ampliadas com outras formas de convivência com o corpo.

Referências Bibliográficas
FERREIRA, Ângela Lucia e MARQUES, Sônia. Privado e público: inovação espacial ou social? Scripta Nova. Revista Electronica de Geografia Y Ciências Sociales. Universidad de Barcelona, n.69, agosto de 2000.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
SILVA, Ana Márcia. Corpo, ciência e mercado: reflexões acerca da gestação de um novo arquétipo da felicidade. Campinas: Autores Associados; Florianópolis: Editora da UFSC, 2001.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

MERLEAU-PONTY 100 ANOS: A FILOSOFIA E O MUNDO DE TODA A GENTE!


Maurice Merleau-Ponty nasceu no dia 14 de março de 1908, na França, e é considerado um pensador central do século XX. Se não fosse filósofo poderia ter sido antropólogo, como o amigo Lévi-Strauss. E o foi, de certa maneira, pois dizia que a filosofia deveria pensar o mundo de toda a gente, referindo-se aos sentidos individuais e coletivos atribuídos às experiências vividas como forma de pensamento e de conhecimento. Às vésperas do centenário de seu nascimento, é extremamente oportuno compreender a inserção do seu pensamento na cultura contemporânea, pois as questões que ele nos colocava, algumas ainda sem respostas, apresentam-se como desafios para a pesquisa, para o conhecimento, para as práticas políticas e sociais, para a vida.

Aos 18 anos entrou para a École Normale Superieur (Escola Normal Superior), onde conheceu Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Claude Lévi-Strauss e outros estudantes que àquela época questionavam a filosofia ensinada na universidade e nos liceus. Queriam que a filosofia tratasse dos problemas e questões de sua época, tais como: novas descobertas da psicologia e da psicanálise, a iminência da guerra, a luta de classes, o movimento impressionista e o surrealismo no campo da arte, as questões da existência. Esse movimento causou grande impacto na intelectualidade francesa, repercutindo em outras partes do mundo, inclusive no Brasil, em especial no que diz respeito à filosofia do corpo, às idéias de subjetividade, liberdade, política, estética, entre outras.

Em suas memórias, Simone de Beauvoir comenta que Merleau-Ponty tinha um profundo respeito pelas idéias, demonstrava rigor com as palavras e era extremamente gentil. Sempre reservado, sabia se posicionar de modo elegante. Mesmo em férias, dedicava, diariamente, duas a três horas ao estudo, leituras e anotações para os Cursos e para os livros.

Entre 1942 e 1945 publica duas importantes obras: A Estrutura do comportamento e Fenomenologia da Percepção, ambas voltadas para a reflexão sobre o corpo, a consciência, a racionalidade. Merleau-Ponty lecionou em importantes instituições como a Sorbonne e o Collège de France, influenciando uma geração de novos alunos, sendo que alguns deles, mais tarde, tornaram-se grandes pensadores, tais como Foucault, Le Breton, Pontalis, Lefort, entre outros.
Merleau-Ponty viveu a Segunda Guerra Mundial e a ocupação da França pelos alemães. Junto com Sartre e outros intelectuais franceses fez parte da Resistência, em um grupo chamado Socialismo e Liberdade. Com o fim da Guerra, funda com Sartre a Revista Les Temps Moderns (Tempos Modernos), da qual será o editor político até 1952. É uma época de vigor do pensamento marxista, escreve vários artigos, posteriormente publicados em Humanismo e Terror (1947) e As aventuras da Dialética (1955). Nestes escritos, marca suas divergências políticas com Sartre ao criticar as interpretações mecanicistas do marxismo que afetam a compreensão da dialética, dos movimentos revolucionários e da História.

Morre repentinamente, no dia 3 de maio de 1961, aos 53 anos, acometido por trombose coronária. Em 1964, é publicado, sob os cuidados de Claude Lefort, O visível e o invisível, obra inacabada cujas anotações contêm o investimento em uma filosofia da carne que irá problematizar as relações entre corpo e alma, percepção e pensamento, entre outras dicotomias próprias ao pensamento moderno e mesmo à fenomenologia.

No número especial da revista Tempos Modernos, publicado quatro meses após a sua morte, Sartre faz uma revisão de sua relação com Merleau-Ponty. Mesmo com o afastamento entre ambos, reafirma o afeto e o respeito pelo amigo e pelo filósofo que, para ele, continuava e continuaria sempre muito vivo.

O pensamento de Merleau-Ponty contém questões, limites, desafios e apostas importantes para o conhecimento da filosofia, da arte, das ciências humanas e sociais que valem a pena ser conhecidas e estudadas, o que vem ocorrendo em várias áreas do conhecimento em todo o mundo. Com Merleau-Ponty aprendemos que pensar é ensaiar, operar, transformar por meio das experiências do corpo, da linguagem e da cultura o próprio pensamento, o conhecimento e a nossa experiência vivida. Essa posição faz toda a diferença em relação à tradição do pensamento ocidental e irá marcar as gerações seguintes nos campos da filosofia e das ciências humanas e sociais.

Segundo François Dosse, em História do Estruturalismo, Merleau-Ponty abre o campo filosófico para a inteligibilidade do irracional, sob a dupla figura do louco e do selvagem. Dava-se a duas disciplinas, a antropologia e a psicanálise, uma posição de destaque que elas ocupariam efetivamente nos anos 60. De fato, Merleau-Ponty descreveu a experiência do corpo na filosofia, nas ciências, em particular na fisiologia e na psicologia, mas também na sociologia, na história, como podemos ler em as Ciências do homem e a fenomenologia e em Signos. Como filósofo procurou compreender a arte, as significações disponíveis e as questões que a obra coloca ao nosso olhar. Procurou ampliar o diálogo da Filosofia com a vida, as ciências, a arte, a literatura.
Terá sido esse percurso filosófico suficiente? Certamente não, pois Merleau-Ponty recusa-se a instalar-se de modo absoluto no saber. A fenomenologia de Merleau-Ponty não possui respostas e nem mesmo apresenta-se como método universal. No entanto, o conhecimento do corpo em sua crítica à epistemologia positivista; o redimensionamento da consciência em direção à percepção e desta em direção a uma experimentação do corpo; a compreensão do conhecimento sensível como interrogação sobre a racionalidade; o logos estético e a estesia da linguagem, dos afetos, da sexualidade, entre outros aspectos de sua obra nos, oferecem pistas, ferramentas, noções, conceitos importantes para os estudos do corpo nas práticas educativas, nas experiências da arte e da cultura e da própria filosofia.

O vivido, espaço onde todos os conteúdos empíricos são dados à experiência, é também condição de possibilidade da filosofia e da ciência, uma vez que a fenomenologia desloca o pensamento para a compreensão do vivido, na espessura do corpo, da história e do sentido. Ao buscar as significações, os sentidos das experiências vividas, a fenomenologia arrisca-se no empírico, mas não se ata ao empirismo de nenhuma ordem.

Antes disso, alia-se ao impensado, buscando outras formas de compreensão das situações, dos discursos, das experiências, da corporeidade. Para Merleau-Ponty, o corpo está para além da justaposição dos órgãos como concebido pelas ciências. A noção do corpo como carne evidencia o desapego de Merleau-Ponty à filosofia da consciência e o deslocamento epistemológico em sua fenomenologia para além dos caminhos da percepção, cuja tarefa assume o lugar de uma meditação inacabada sobre o corpo e sua linguagem.

Seria preciso esquecer o grande projeto da fenomenologia para reconquistar a força do espanto na inexplicável animação do corpo, referindo-se ao movimento humano e, dessa maneira, situar-se para além da percepção, na estesia do corpo, na comunicação dos gestos e em outras linguagens cuja relação com a pintura tornou-se emblemática. A pintura não apenas ilustra, mas justifica a linguagem do corpo. Os olhares que se cruzam diante da obra de arte desafiam a analítica dos sentidos e as condições do conhecimento.

Em seus ensaios estéticos, Merleau-Ponty dedicou-se a essa meditação do corpo como obra de arte e em cuja estesia encontrou novos arranjos epistemológicos. O logos estético proporciona um mergulho no sensível e um aprofundamento na carne. Nesse movimento, a relação corpo e alma ultrapassa o campo do visível para se encontrar com os símbolos, com o imaginário, com a história, com a sexualidade, entre outras formas de gestão da vida e do conhecimento.

Petrucia Nóbrega

Para Saber mais

Algumas obras de Merleau-Ponty publicadas no Brasil


Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
O Visível e o Invisível. São Paulo: Perspectiva, 1992.
Signos São Paulo: Martins Fontes, 1992.
A prosa do mundo. São Paulo. Cosac&Naify, 2002.
O olho e o espírito. São Paulo. Cosac & Naify, 2004.
A Estrutura do comportamento. São Paulo. Martins Fontes, 2006.
Aventuras da dialética. São Paulo. Martins Fontes, 2006.
Psicologia e pedagogia da criança. São Paulo. Martins Fontes, 2006.