Maurice Merleau-Ponty nasceu no dia 14 de março de 1908, na França, e é considerado um pensador central do século XX. Se não fosse filósofo poderia ter sido antropólogo, como o amigo Lévi-Strauss. E o foi, de certa maneira, pois dizia que a filosofia deveria pensar o mundo de toda a gente, referindo-se aos sentidos individuais e coletivos atribuídos às experiências vividas como forma de pensamento e de conhecimento. Às vésperas do centenário de seu nascimento, é extremamente oportuno compreender a inserção do seu pensamento na cultura contemporânea, pois as questões que ele nos colocava, algumas ainda sem respostas, apresentam-se como desafios para a pesquisa, para o conhecimento, para as práticas políticas e sociais, para a vida.
Aos 18 anos entrou para a École Normale Superieur (Escola Normal Superior), onde conheceu Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Claude Lévi-Strauss e outros estudantes que àquela época questionavam a filosofia ensinada na universidade e nos liceus. Queriam que a filosofia tratasse dos problemas e questões de sua época, tais como: novas descobertas da psicologia e da psicanálise, a iminência da guerra, a luta de classes, o movimento impressionista e o surrealismo no campo da arte, as questões da existência. Esse movimento causou grande impacto na intelectualidade francesa, repercutindo em outras partes do mundo, inclusive no Brasil, em especial no que diz respeito à filosofia do corpo, às idéias de subjetividade, liberdade, política, estética, entre outras.
Em suas memórias, Simone de Beauvoir comenta que Merleau-Ponty tinha um profundo respeito pelas idéias, demonstrava rigor com as palavras e era extremamente gentil. Sempre reservado, sabia se posicionar de modo elegante. Mesmo em férias, dedicava, diariamente, duas a três horas ao estudo, leituras e anotações para os Cursos e para os livros.
Entre 1942 e 1945 publica duas importantes obras: A Estrutura do comportamento e Fenomenologia da Percepção, ambas voltadas para a reflexão sobre o corpo, a consciência, a racionalidade. Merleau-Ponty lecionou em importantes instituições como a Sorbonne e o Collège de France, influenciando uma geração de novos alunos, sendo que alguns deles, mais tarde, tornaram-se grandes pensadores, tais como Foucault, Le Breton, Pontalis, Lefort, entre outros.
Merleau-Ponty viveu a Segunda Guerra Mundial e a ocupação da França pelos alemães. Junto com Sartre e outros intelectuais franceses fez parte da Resistência, em um grupo chamado Socialismo e Liberdade. Com o fim da Guerra, funda com Sartre a Revista Les Temps Moderns (Tempos Modernos), da qual será o editor político até 1952. É uma época de vigor do pensamento marxista, escreve vários artigos, posteriormente publicados em Humanismo e Terror (1947) e As aventuras da Dialética (1955). Nestes escritos, marca suas divergências políticas com Sartre ao criticar as interpretações mecanicistas do marxismo que afetam a compreensão da dialética, dos movimentos revolucionários e da História.
Morre repentinamente, no dia 3 de maio de 1961, aos 53 anos, acometido por trombose coronária. Em 1964, é publicado, sob os cuidados de Claude Lefort, O visível e o invisível, obra inacabada cujas anotações contêm o investimento em uma filosofia da carne que irá problematizar as relações entre corpo e alma, percepção e pensamento, entre outras dicotomias próprias ao pensamento moderno e mesmo à fenomenologia.
No número especial da revista Tempos Modernos, publicado quatro meses após a sua morte, Sartre faz uma revisão de sua relação com Merleau-Ponty. Mesmo com o afastamento entre ambos, reafirma o afeto e o respeito pelo amigo e pelo filósofo que, para ele, continuava e continuaria sempre muito vivo.
O pensamento de Merleau-Ponty contém questões, limites, desafios e apostas importantes para o conhecimento da filosofia, da arte, das ciências humanas e sociais que valem a pena ser conhecidas e estudadas, o que vem ocorrendo em várias áreas do conhecimento em todo o mundo. Com Merleau-Ponty aprendemos que pensar é ensaiar, operar, transformar por meio das experiências do corpo, da linguagem e da cultura o próprio pensamento, o conhecimento e a nossa experiência vivida. Essa posição faz toda a diferença em relação à tradição do pensamento ocidental e irá marcar as gerações seguintes nos campos da filosofia e das ciências humanas e sociais.
Segundo François Dosse, em História do Estruturalismo, Merleau-Ponty abre o campo filosófico para a inteligibilidade do irracional, sob a dupla figura do louco e do selvagem. Dava-se a duas disciplinas, a antropologia e a psicanálise, uma posição de destaque que elas ocupariam efetivamente nos anos 60. De fato, Merleau-Ponty descreveu a experiência do corpo na filosofia, nas ciências, em particular na fisiologia e na psicologia, mas também na sociologia, na história, como podemos ler em as Ciências do homem e a fenomenologia e em Signos. Como filósofo procurou compreender a arte, as significações disponíveis e as questões que a obra coloca ao nosso olhar. Procurou ampliar o diálogo da Filosofia com a vida, as ciências, a arte, a literatura.
Terá sido esse percurso filosófico suficiente? Certamente não, pois Merleau-Ponty recusa-se a instalar-se de modo absoluto no saber. A fenomenologia de Merleau-Ponty não possui respostas e nem mesmo apresenta-se como método universal. No entanto, o conhecimento do corpo em sua crítica à epistemologia positivista; o redimensionamento da consciência em direção à percepção e desta em direção a uma experimentação do corpo; a compreensão do conhecimento sensível como interrogação sobre a racionalidade; o logos estético e a estesia da linguagem, dos afetos, da sexualidade, entre outros aspectos de sua obra nos, oferecem pistas, ferramentas, noções, conceitos importantes para os estudos do corpo nas práticas educativas, nas experiências da arte e da cultura e da própria filosofia.
O vivido, espaço onde todos os conteúdos empíricos são dados à experiência, é também condição de possibilidade da filosofia e da ciência, uma vez que a fenomenologia desloca o pensamento para a compreensão do vivido, na espessura do corpo, da história e do sentido. Ao buscar as significações, os sentidos das experiências vividas, a fenomenologia arrisca-se no empírico, mas não se ata ao empirismo de nenhuma ordem.
Antes disso, alia-se ao impensado, buscando outras formas de compreensão das situações, dos discursos, das experiências, da corporeidade. Para Merleau-Ponty, o corpo está para além da justaposição dos órgãos como concebido pelas ciências. A noção do corpo como carne evidencia o desapego de Merleau-Ponty à filosofia da consciência e o deslocamento epistemológico em sua fenomenologia para além dos caminhos da percepção, cuja tarefa assume o lugar de uma meditação inacabada sobre o corpo e sua linguagem.
Seria preciso esquecer o grande projeto da fenomenologia para reconquistar a força do espanto na inexplicável animação do corpo, referindo-se ao movimento humano e, dessa maneira, situar-se para além da percepção, na estesia do corpo, na comunicação dos gestos e em outras linguagens cuja relação com a pintura tornou-se emblemática. A pintura não apenas ilustra, mas justifica a linguagem do corpo. Os olhares que se cruzam diante da obra de arte desafiam a analítica dos sentidos e as condições do conhecimento.
Em seus ensaios estéticos, Merleau-Ponty dedicou-se a essa meditação do corpo como obra de arte e em cuja estesia encontrou novos arranjos epistemológicos. O logos estético proporciona um mergulho no sensível e um aprofundamento na carne. Nesse movimento, a relação corpo e alma ultrapassa o campo do visível para se encontrar com os símbolos, com o imaginário, com a história, com a sexualidade, entre outras formas de gestão da vida e do conhecimento.
Petrucia Nóbrega
Para Saber mais
Algumas obras de Merleau-Ponty publicadas no Brasil
Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
O Visível e o Invisível. São Paulo: Perspectiva, 1992.
Signos São Paulo: Martins Fontes, 1992.
A prosa do mundo. São Paulo. Cosac&Naify, 2002.
O olho e o espírito. São Paulo. Cosac & Naify, 2004.
A Estrutura do comportamento. São Paulo. Martins Fontes, 2006.
Aventuras da dialética. São Paulo. Martins Fontes, 2006.
Psicologia e pedagogia da criança. São Paulo. Martins Fontes, 2006.